quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Indignada!!

Estou indignada, o filme A árvore da vida não está em cartaz nos cinemas em minha cidade. O jeito é esperar chegar nas locadoras.
Se você ainda não conhece o filme, segue uma crítica de Luciano Trigo:

Malick aproxima o cinema da experiência religiosa
Alguém me falou outro dia que há cineastas que fazem filmes, e há cineastas que fazem obras. Concordo, e Terrence Malick está seguramente na segunda categoria: A Árvore da vida, vencedor da Palma de Ouro no último Festival de Cannes, não impressiona apenas por explorar novos e arriscados caminhos para a linguagem cinematográfica, relacionando de forma enigmática um drama familiar no Texas dos anos 50 com a própria história do universo e da aventura humana no planeta Terra – com longas sequências de imagens de dinossauros, microorganismos aquáticos, erupções vulvânicas e explosões solares que podem desconcertar o espectador mediano, apesar da beleza plástica. Mergulhando radicalmente numa narrativa contemplativa e não-linear, sensorial e poética, ele aproxima o cinema da experiência religiosa, capturando e traduzindo em imagens e sons o significado do amor, da revelação e da fé.
Nesse sentido, A Árvore da Vida pode ser entendido como um contraponto positivo ao pessimismo essencial de Melancolia, de Lars Von Trier. De maneira ambiciosa, os dois diretores adotam uma perspectiva “macro” para tratar de temas como a impermanência e a fragilidade essencial da existência, a partir de personagens comuns e histórias “micro”, mas chegam a conclusões diferentes, ou mesmo opostas, que refletem talvez duas visões de mundo antagônicas. Trier é um cineasta da matéria, enquanto Malick busca o espírito. Trier aponta para a fraqueza dos seres humanos com um olhar cruel e quase científico, enquanto Malick faz do cinema uma ferramenta para tentar dialogar comMalick filma a infância e a perda da inocência, o aprendizado da culpa e do ciúme, o processo de formação da identidade das crianças e as relações de afeto e poder no núcleo familiar, com uma delicadeza que encontra poucos paralelos na história do cinema. Conta, para isso, com interpretações impecáveis de todo o elenco, começando por Brad Pitt (também produtor do filme) no papel de Jack O’Brien, pai autoritário e ao mesmo tempo amoroso, que entende a educação como sinônimo de fortalecimento e disciplina e assim se empenha em preparar seus três filhos para a vida. Sean Penn é a versão adulta do menino mais velho, por um lado a materialização dos desejos do pai, mas carregando dentro de si os fantasmas de sua formação e o trauma da perda de um irmão. É pelo seu olhar que Malick conduz a narrativa (o que se revela na sutileza da câmera baixa, mostrando a perspectiva do olhar da criança, na maior parte do tempo). Mas é a personagem da mãe, magnificamente interpretada por Jessica Chastain, quem oferece as chaves para o entendimento e a fruição do filme. Já numa de suas primeiras falas em off, ela apresenta sua visão singela da vida e seus dois caminhos, o da Natureza e o da Graça.
Tudo em A Árvore da Vida, cada evocação visual, cada elemento da narrativa, remeterá a essa dualidade, mas não de uma maneira categórica ou doutrinária: é compartilhando os momentos de alegria e frustração, de realização e de perda de cada personagem que Malick insinua uma crítica ao modo como vivemos hoje e uma reflexão sobre a humana, demasiado humana necessidade de uma relação mais espiritual com o mundo. Da citação do Livro de Jó no início de A Árvore da Vida à afirmação da possibilidade de redenção na sequência final, Malick conduz o espectador a uma travessia difícil e incomum, mas altamente recompensadora para quem souber olhar.